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Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Estudante, professor e agente da História de seu tempo. Deformado pela Universidade Federal Fluminense, pela capacidade de resiliência em torno de causas justas, pela coragem e pela sinceridade. Dinâmico, espiritualista, intuitivo, libertário, imprevisível. A leitura de seus textos é recomendada a quem faz uso de covardias.

domingo, 20 de novembro de 2011

Quem é que vai pagar por isso?

        Tem gente que tenta me convencer ainda de que é necessário votar melhor. Eu digo a estas pessoas que, cada vez mais, é necessário lutar melhor. Da maneira como estamos sendo conduzidos no Brasil e no mundo, já deu pra perceber que a velha democracia representativa sucumbiu ao poder de banqueiros e especuladores, bandidos menos afortunados (milícias, traficantes, xerifes locais, etc.) e até mesmo à casta política, que pouco se alterna no poder mas não passa de subalterna aos grupos anteriores. As organizações locais é que efetivarão a saída da atual ditadura do capital, uma fórmula de luta e resistência que conta mais com a imprevisibilidade como método que com a tradicional busca pelos caminhos institucionais reconhecidos.

           Não recomendo às pessoas que reneguem benefícios ou brechas ainda proporcionados pelo Estado. Muito menos que deixem de reivindicar aos governantes seus direitos de cidadania, sem os quais a sobrevivência cotidiana, já tão ameaçada, torna-se inviável. Esta contradição, infelizmente, deve continuar enquanto estivermos no capitalismo porque este sistema não oferece dignidade mínima a ninguém mais que à meia-dúzia gulosa. Se possível, mata um por um conforme o grau de ameaça que promove - da fome à bala. Temos de ser, ao contrário dele, cada vez mais solidários com a vida humana. Inclusive com aqueles com quem nutrimos desavenças menores. Não estamos juntos na propaganda enganosa, na disputa eleitoral para perder e negociar vantagens outras ou na negociação arranjada e oculta com patrões para obter resultados aparentemente favoráveis aos movimentos sociais. Isto é engodo puro e todo mundo acaba igualando a esquerda partidária no mesmo saco de gatos com razão. Não precisamos sacrificar o socialismo desta maneira.

         Estaremos juntos na defesa de espaços públicos, de direitos mínimos à dignidade, ou seja, em lutas específicas que convirjam propósitos anticapitalistas e de sobrevivência dos militantes e das pessoas em geral. Estaremos juntos quando as circunstâncias históricas exigirem um levante unificado, por solidariedade de classe ou por interesse pontual, ainda que cientes de que diversas destas lutas não resultam na derrubada imediata do sistema mas objetivam contê-lo no avanço sobre o próprio Ser. O que resultará na derrubada do sistema capitalista será a atitude socialista cotidiana, a superação da necessidade de acúmulo e roubo da dignidade alheia, o fim da necessidade de domínio, e isto não é defesa do socialismo utópico, é antes a consciência da importância que a reprodução ideológica tem na sustentação de algo que agora resolveu submeter o mundo ao capital virtual, por exemplo. 

        Você pode deflagrar uma guerra e sustentá-la por mártires, impor uma ditadura do proletariado e nada disso superará a essência do que sustenta a mentalidade capitalista. Você pode eleger políticos de esquerda na democracia burguesa - o que considero cada vez mais difícil -, pois é mais fácil fazer o cara de esquerda ter de esquerda só o discurso, pois se trata de uma condição tácita para o seu patrocínio eleitoral e até mesmo para a sustentação de seu mandato. O que vai, de fato, superar a crueldade de nossos tempos é a deflagração de uma guerra ideológica, estabelecida na coerência entre discurso e prática cotidianos, coragem no propósito desta luta que é coletiva mas também individual: não posso mais querer tirar do outro a felicidade dele em busca da minha. Não conseguirei nem a minha e ainda destruirei a do outro, gerando violência sobre violência. Do contrário, teremos o engodo vencendo a realidade eternamente. O resto fica por conta da barbárie individualista, que já deu no que deu e está rolando sem pena: só vítimas, de uma maneira ou de outra.    

       O apego à ocupação perpétua de aparelhos institucionais é um fenômeno que tornou engessada e subalterna parte de nossa esquerda partidária. Temos de aprender com os nossos erros, saber superá-los e saber também traçarmos alianças pontuais que nos assegurem certa força política na resistência. Existirão, numa sociedade complexa como a nossa, pessoas dispostas a atuar dentro e fora da institucionalidade sem que, para tal, apenas reduzam suas passagens ao jogo amestrado dos poderosos de sempre. Em outras palavras, sei discernir o companheiro partidário que age por motivação ideológica, que sabe separar a necessidade de marketing e supremacia dos seus pares em situações específicas que exigem solidariedade de classe, de outros que somente se aproveitam da fachada, que demonstram suas garras corruptas e vacilantes no instante mais difícil das contradições. 

           É por essas e outras que alternei minha militância em diferentes ambientes, grupos ou espaços. Emergi do movimento comunitário, passei pelo movimento estudantil, ocupei cargos públicos ao lado de pessoas da esquerda partidária, busquei a condição autônoma de servidor concursado, fui professor e sindicalista da categoria na rede privada, radialista no subúrbio, diretor de ONG. Enfrentei prefeitos, governadores, professores universitários, vereadores, presidentes da república, donos de escola, policiais e companheiros corruptos em diversas situações. Esta participação em diversas frentes tornou-me ainda mais convicto da contribuição relevante do anarquismo na minha mentalidade política particular, o que não me fez sectário. Ao descobrir como funciona o Brasil e seus amálgamas sociais complexos, tive de corresponder uma sobrevivência arrastada aos posicionamentos políticos necessários em cada momento e circunstância colocados. Quando a aceitação da atitude alheia (humilhações, roubos, esculachos e situações inacreditáveis a que somos submetidos por aqueles que dizem defender a qualidade e o mérito) comprometia substancialmente princípios básicos do meu Ser, toquei o "foda-se" necessário, ainda que relutasse bastante em torno da melhor forma em diversos momentos. Era a condição de escravo que estava posta sobre meus ombros, a anulação de minha existência que dinheiro algum poderia comprar. Quanto mais o mínimo que sempre me pagaram! 

        Estes obstáculos não foram poucos nem tiveram limites tão óbvios, como a lei, o respeito mínimo, a lógica racional, ou até mesmo, pasmem, a melhor forma de lucratividade do patrão!!! Sofremos de uma permanência aristocrática, como já tratei diversas vezes neste blog. A condição de privilegiado é oposta à condição de indigente, sendo o meio termo uma dádiva que nem sempre dura o quanto acreditamos ou precisamos que dure. Os métodos de nossa elite em nada se equivalem à racionalidade que propaga em discurso: sua fundamentação e norte habitam o domínio do outro, a afirmação desmensurada de poder pelo poder, o exibicionismo, a carência que resulta desta mesma ignorância e a hipocrisia das relações. Numa sociedade assim, as reações são as mais inesperadas. A mínima harmonia - se é que podemos chamar esta relação desta maneira - só é alcançada no agrado e no elogio sistemáticos do vaidoso que lhe comanda o trabalho, a família, a máquina. O que diziam ser uma prerrogativa do serviço público, é comum também na iniciativa privada, em todos os lugares. O tempo todo são as relações de proximidade, parentesco, amizade, sexo, intimidade, cumplicidade no desvio, que determinam o funcionamento e o pagamento do que deve ser feito para a sociedade se manter. Imagine o resultado catastrófico deste procedimento nas mãos de um médico, de um chefe, de um professor, de uma dona de casa, de um pai, de um eletricista, de um policial, etc., etc., etc.? É a bagunça que vivemos. Cheia de propaganda enganosa e moralismos inúteis.

          O anarquismo me ofereceu dois fundamentos básicos para lidar com esta insanidade coletiva: um é que o capitalismo é um câncer social; outro que o Estado é apenas seu serviçal, que não é quem o ocupa hoje, ontem ou amanhã o seu grande problema ou o triunfo para as políticas públicas necessárias. O Estado é uma entidade parasitária da sociedade em que a própria  sociedade foi conformando a manutenção por interesses mesquinhos. O sujeito bem intencionado ou será sugado por sua lógica ou será repelido. Isto não quer dizer que deixar o mercado agir livremente, acreditando que a iniciativa privada seja mais eficiente e competente, seja certo. Também não pois ela consegue ser pior, ela é o verdadeiro comando do Estado que tanto critica. O que temos de fazer é agir pelo que precisamos em comum durante o tempo de tarefa árdua que ainda levaremos para nos ver livres destas chagas. Não votar ou votar nulo é um começo. Não fazer campanha para candidato nenhum, assumir logo que não estamos elegendo ninguém, que está tudo acordado: quem vai ganhar e quem vai perder é definido antes, pelos mesmos, e toda a democracia representativa não passa de uma grande farsa. Não tenho mais como bater palma para palhaço num teatro caro em que o grande palhaço sou eu. Se não temos como resistir ao pagamento de impostos, devemos então sugar o máximo que pudermos do Estado, das empresas, de todos que tiram onda com a cara de quem trabalha e dá duro. 

      É imperioso sugar mas não para benefício individualista ou de pequenas panelas (como é próprio do jeitinho brasileiro): temos de elaborar e praticar estratégias de ocupação ou sugação da máquina capitalista para que seus recursos garantam uma ampla rede de apoio mútuo, capaz de colaborar na sustentação do maior número de pessoas possível. Temos que ousar sustentar o militante combativo, por exemplo, sem adestrá-lo à subordinação dos que comandam o Estado,  os partidos ou o capital. Socialistas deram este passo na ocupação de sindicatos, federações, confederações, mandatos parlamentares, etc., mas acabaram por entrarem no jogo perigoso das tentações que os privilegiados lhes ofereceram. Hoje, muitos lutam, na verdade, para se perpetuarem na exclusão de outros companheiros, o que em nada lembra o princípio socialista nem constitui estratégia revolucionária. Isto levou-os ao descrédito popular, sedimentando as garras do próprio capitalismo a partir de um descrédito coletivo na possibilidade de mudança. É a grande contribuição do PT ao capitalismo mundial, por exemplo. Este proceder afetou ideologicamente nosso povo e esta experiência tem de ser superada.               

             Comecemos pelo micro, outro ensinamento dos libertários. Pra que desafiar proporções nacionais ou internacionais se não damos conta do micro-espaço, das microrrelações do cotidiano, como tanto insisto? Se estamos engendrando esforços descomunais para garantir sobrevivências individuais em frangalhos, arrastando-nos uns sobre os outros para vender mais barato nossa força de trabalho sob o risco de um pé na bunda a qualquer título ou espírito, por que não engendramos esforços por relações humanas diferenciadas com o trabalho, a produção e o lucro? Mesmo que a nível local, mesmo que inicialmente sejam tentativas insipientes ou contraditórias, mesmo que as organizações locais de sustentabilidade anticapitalista exijam laços e fluxos variados, estas seriam fundamentais à imprevisibilidade como ingrediente da luta. 

    Neste novo modelo de organização, a institucionalidade ou o reconhecimento estatal não se daria como mola-mestra mas talvez como parte de um arcabouço de sustentabilidade amplo e diversificado. Sob a fachada de uma entidade assistencialista banal, permitida e financiada, por exemplo, esconderíamos uma rede de apoio mútuo vibrante que em nada se assemelharia ao ritual típico da caridade interessada em gratidões eternas. Penso que precisamos mesclar o que é possível fazer angariando recursos e o que é necessário fazer enquanto atitude revolucionária. Para tal, egos e vaidades são os grandes desafios. Como fomos criados dentro de uma lógica de disputas e competições mesquinhas, o desafio maior de grupos assim sempre foi a coesão mínima do próprio grupo. Experimentei grupos que se dispuseram assim e posso dizer que foram bons enquanto duraram. Não são eternos, têm prazo de validade. Mesmo assim, isto não quer dizer que devem ser menosprezados ou desqualificados: na obsolência de um, ergue-se outro sob novos desafios, ambientes, desculpas e propósitos. As ações libertárias não são feitas para se sedimentarem no tempo e no espaço enquanto estruturas sociais estanques. Ela se permitem ao aprimoramento, à dissolução, à inovação, à criatividade e à imprevisibilidade. Isto não é pouco. Só poderemos saber se é isso o melhor caminho se tentarmos. O que temo é a naturalização de uma proposta ideológica que só se perpetua na aceitação ou no acovardamento. Processos históricos têm sementes, exigem água, cuidados e energizações, proteções e carinhos. Não caem do céu por obra dos homens. Muitas obras humanas também provocam os céus e a proposta apocalíptica anda tentadora porque há um numeroso contingente implorando por isso. Não tô nessa nem desejo que você esteja. Vamos pensar, para além de 2012, "quem é que vai pagar por isso?". Nas palavras do próprio Lobão, está acesa a chama da insatisfação humana e de sua incrível capacidade de reelaboração.                       
               

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Longe ao longe

                  Homenagem de Caio di Palma, poeta e grande amigo, sobre minha passagem por Minas Gerais e o atual "exílio" ou afastamento. Obrigado, Caio, por suas palavras 
que transcrevo neste blog. Nem imagina o quão oportunas! Chegaram em momento substancial, de saudades da roça e crises com o humano urbano inconstante, híbrido e orgulhoso de egoísmo, que não sabe viver sentimento profundo. Desconfia. Maltrata.
Finge que nada aconteceu porque dormiu e acordou diferente. Como se nada tivesse dito, feito ou desconfiado. Tempos difíceis. Saudades da minha verdadeira terra, Santo Antônio do Rio Grande.


Segue o poema de Caio:


"Longe 'ao longe',
Diz-me Textos, varão Calado,
Rasgados na urgente noite
A sozinhar como queiram os astros
A difícil canção do exílio

Alardeado, largado,
Inicia o rito báquico a seduzir touros pelo caminho
Erra o tíaso por tendas e desertos
Na mão crispada ab-sinto enluaradas noites

Dos cavaleiros errantes, lidera a matilha selvagem,
Fazendo nascer encantos e filhos na pele ardente
A ladrarem juntos o canto suado
Das bacantes masculinas

Enganado, solta o ar no fim do dia,
Empunha o ardente texto paixão
Perde a vida ou quase nada,
Rasga brâmanes na fúria dos cantos
Encanto duro ou flor de cactos

Longe 'ao longe',
Diz-me o homem que amo,
Difícil canção do exílio

Foi-se quem acostumei-me a ser,
Nunca vacilante em ereções
De farras aposento tantas tramas,
Chamas sacanas no oeste foram o norte

Julgo amar, julgo não amar,
Desejo falar não sobre o amor,
Sobre tudo, muitos devaneios!
Saberei desinstrumentalizar-me?

Arco com o discurso alheio
Mas quanto ao nome próprio,
Alheio-me no tempo e
Caio distante do sujeito EU

Marginal da ordem, perde o tino
No passo incerto do Zagreu Dioniso
Revelado na luz sob o sol

Só sei o que não digo
Preso às lexicografias do deserto
Sou engano ou paixão?
Fraco ou divino?
Perdi a conquista?

Lá se vai a noite cangaceira,
Dizem os lobos, loucos à flor da pele!
Dos finos bagos de romã aos acalentos
Miro urgente necessidade de ser,
À beira da janela, um beija-flor

Chovo fácil, enlameio ou minhoco a terra
Onde faço amor no chão com a língua
Uma necessidade vertigem flor do dia.

Quanto tempo falta para dizer sim?
Quanto tempo para se reconciliar?

Longe 'ao longe',
Diz-me ele, pedra de alquimia,
Difícil canção do exílio."

sábado, 5 de novembro de 2011

Concursos Públicos na Era do Capitalismo Financeiro

                   Estou acumulando uma experiência em concursos públicos e acredito que posso compartilhar com os leitores sensações e impressões valiosas. Desde a decisão de estudar e concorrer, passando pela seleção criteriosa de quais concursos participar, os métodos das provas em si, a classificação, a posse e a experiência em um concurso público municipal, até o que observo de experiências correlatas e alheias, das políticas e politicagens envolvidas, da obstinação em se tornar servidor público de parte considerável de nosso povo enquanto a iniciativa privada expulsa e elimina grandes quadros como descartáveis. Tudo que experimento reforça o que pressinto, sinalizando êxitos e fracassos meus, individuais, e nossos, enquanto sociedade. Convido a uma reflexão como poucos ousaram estabelecer.

            Assusta-me a quantidade de gente que procura, cada vez mais, os concursos públicos nos grandes centros urbanos do país. Trata-se de reflexo da incapacidade da iniciativa privada de absorver um contingente humano que julga necessário descartar como lixo. Desde que vislumbrou a capacidade inventiva do capital virtual e fez deste uma referência de acúmulo mundial que não necessita da produção pelo trabalho, nossos "experts" do mercado financeiro instituíram a falência múltipla dos órgãos do próprio sistema capitalista tradicional.

          De que adianta produzir, empregar, ter um todo trabalho para vender e para pagar impostos, se é possível faturar muito mais na jogatina de ações privadas e títulos públicos, empréstimos a juros extorsivos, refinanciamentos e endividamentos eternos? Identificaram custo desnecessário em produzir. Logo, o que resta à maioria da humanidade é a disputa acirrada pelas migalhas que sobraram do setor produtivo. Temos migalhas nas bolsas-esmolas oficiais, temos migalhas dentre empregos temporários (uns que pagam, outros que não pagam, deixando o trabalhador numa incerteza inquietante quanto ao dia de amanhã), temos migalhas que são de setores marginalizados (prostituição não declarada, tráfico de drogas, contrabando, venda de muambas, de sentenças, de sistemas de proteção e favorecimentos instituídos por corruptos, etc.). 

             O que não temos mais é a certeza de que estudar gera um trabalho digno, que ser digno no trabalho gerará a retribuição de outrora, que produzir e ter uma empresa, por menor que seja, durará mais que um ano. Pouquíssimos faturam muito, mas muito mais do que faturaram os ancestrais ricos. Da classe média, o Estado extrai os recursos para a demagogia que promove entre os pobres e os donos do mundo em proporções desiguais. Quando falamos em combate à corrupção e aos desvios de recursos públicos, esquecemos que o maior desvio não está no agente público, servidor comum ou político eleito, e sim na grande contribuição que sustenta os poucos donos do mundo. Sugam quase 50% de tudo o que o Estado Brasileiro arrecada em impostos, sobrando dos outros 50% tudo o que o Estado gasta para manter serviços, pagar pessoal e roubar entre políticos.

             Protestos ecoam em todo o mundo em função de quem, já percebendo a disparidade, não aceita mais o jogo desfavorável ao ponto em que chegou. Assistimos a uma Grécia afundada em dívidas, reduzindo salários e demitindo 30% do funcionalismo público, ou seja, cortando e destruindo a própria economia, para manter em dia o pagamento de juros extorsivos a banqueiros e organismos multilaterais. Quando o primeiro-ministro ameaçou fazer um referendo para que o seu povo dissesse se aceita ou não o acordo com a União Europeia, os donos do mundo chiaram, fizeram pirraça, derrubaram bolsas, ameaçaram falir países em cascata. Cada vez mais gananciosos, dispostos a tudo por um dinheiro incalculável que jamais curtirão em vida (porque não terão vida para gastar tanto, ainda que de forma perdulária e consumista), submetem o resto do povo, lá quanto cá, aos seus comandos autoritários de extorsão e roubo institucionalizado. 

           Assim, diversas pessoas no Brasil, cientes de que o desenvolvimentismo nacional propalado na mídia é uma falácia porque não distribui riqueza ou, pelo menos, não sustenta a maior parte das profissões existentes e necessárias a qualquer sociedade, inflam a concorrência por vagas no serviço público. Há, de fato, uma máquina que ganha fortunas sobre esta tendência. Um grupo seleto de cursinhos preparatórios, jornais direcionados, empresas e fundações organizadoras dos processos seletivos, gráficas, escolas e universidades que cedem suas dependências para a realização das provas, servidores que recebem gratificações por participarem de comissões internas organizadoras dos certames, e, na ponta, ganhando muito menos, trabalhadores temporários contratados para corrigir provas, aplicá-las, transportá-las, etc. Mas esta máquina pode ser eficiente e colaborativa, como pode ser perniciosa e frustrante.

             Com a péssima formação acelerada de nosso ensino superior - cada vez mais moldado pelo princípio estadunidense da pressa, da quantidade de títulos para inglês ver, da redução drástica de disciplinas e conteúdos a serem estudados -, estamos assistindo a uma procura inacreditável de formados em nível superior disputando vagas de nível médio. Isto se deve também, é lógico, pelas razões de mercado que reduziram vagas na iniciativa privada. Gradativamente, como forma de excluir o grande contingente que procura por sua dignidade mínima (não chamo mais de privilégio, embora saiba que ser servidor público acabou se tornando; chamo de dignidade mínima em função das barbaridades que vejo praticarem os gestores da patifaria demagógica nas empresas particulares), o Estado Brasileiro vem ampliando a oferta de concursos públicos de nível superior específico, a saber: Direito, Administração, Comunicação Social, Ciências Contábeis, Engenharias, Economia, e, na rabeira, Arquivologia, Biblioteconomia e Tecnólogos específicos (cursos tecnológicos de 2 anos). Estas preferências revelam uma tendência ideológica de quem vem gerindo as políticas de Estado. 

           Ao reduzirem as antigas vagas de nível médio, passaram a exigir dos candidatos deste segmento conhecimentos que se direcionam pelo interesse das áreas de nível superior descritas acima. Não é raro observar a exigência de legislações específicas para cargos de nível médio. Sabemos nós que o Direito não é ensinado nas escolas brasileiras deste segmento, muito menos a Informática, tal como é exigida, tem respaldo na Formação Geral (modalidade de Ensino Médio generalista) ou mesmo na funcionalidade a qual o servidor irá atuar caso seja classificado e empossado. O que dizer, então, de provas com os seguintes conteúdos: Técnicas Comerciais, Conhecimentos Bancários, Noções de Contabilidade, dentre outras? Aquilo que exclui o sujeito de nível médio, na verdade, visa favorecer profissionais de nível superior nestas áreas. E o que é pior: não se trata de menosprezar conteúdos que podem ser, de uma maneira ou de outra, úteis ao servidor em questão (o que acho raro em diversos casos) mas se trata de criticar o crescimento forçado de espécie de servidor doutrinado por determinada perspectiva ideológica interessante aos donos do mundo.

            Os servidores públicos têm tarefa muito relevante em uma sociedade que destina à maioria a condição de pobreza espiritual e material. Ricos não precisam de seus serviços ou, caso sejam vítimas de descaso, têm os recursos necessários para acelerarem a justiça a seu favor, podem continuar vivendo sem o serviço público, pagam o que for necessário e seguem a vida. Pobres e remediados fatalmente precisarão mais do serviço público em diversos momentos de suas vidas. Logo, o profissional a qual se espera estar servindo ao público; este que, na verdade, é o seu patrão, deve ter sensibilidade social e compromisso público com o que faz. Deve saber que é sustentado pelos impostos que pagamos para uma finalidade muito nobre, qual seja a de transformar este país da selva em que se encontra, onde os indivíduos têm que recorrer a malandragens e a exceções para alcançarem direitos mínimos, num país decente, que respeita a dignidade humana, os direitos e deveres de cada um. Logo, o processo seletivo para ingresso no serviço público tem que priorizar esta perspectiva. Não entendo, por exemplo, a histórica e exclusiva importância dos conteúdos de Português e Matemática nos certames, assim como continuo sem entender as recentes inovações que trataram de incluir Direito, Informática, Economia, Contabilidade, etc., nas provas de nível médio. O mesmo posso dizer que não entendo, como critério de qualidade prioritário, a exigência de nível superior específico - das mesmas carreiras - em diversos casos.

             O que aconteceu com a exigência de qualquer nível superior? Lembro-me da comemoração que foi a liberdade de se comprovar qualquer graduação mínima para o ingresso no Instituto Rio Branco, órgão de formação dos nossos diplomatas que antes exigia exclusivamente a formação superior em Direito. Possibilita uma diversidade de concepções daquela carreira que só enriquece o serviço público da sensibilidade social e estratégica que deve possuir na formulação e na execução de políticas públicas. O mesmo não exigiria de carreiras específicas do Direito, como os cargos de juiz e promotor, que poderiam permanecer como reserva de mercado da área. Agora, analistas em geral, já penso que podem ser profissionais diversificados. 

              Quanto aos conteúdos das provas, acrescentaria a História do Estado Brasileiro como prova obrigatória. Poderia esta prova ser mais direcionada para a História das Políticas Públicas Setoriais no Brasil, abordando aspectos relevantes já experimentados e reflexos na população-alvo. Poderíamos somar a esta, provas de Sociologia ou de Geografia, ao invés de investirmos em provas esquisitas de Ética no Seviço Público que, na verdade, dizem pouco sobre o efeito a que se propõem. O Português deveria ser mantido sim para todos mas a Matemática acredito que somente para setores dos quais se torna imprescindível. Não vejo razoabilidade em se aferir conhecimentos de trigonometria ou de equações e inequações a sujeitos que atenderão o público, por exemplo. 

             Alguns conhecimentos específicos deveriam ser alvo de cursos de formação aos servidores classificados e não de provas de seleção geral. Determinados conhecimentos a quem não atua na área sequer podem ser avaliados sem a concorrência da práxis. Como diagnosticar um bom bancário da Caixa Econômica Federal? A sensibilidade social deve estar acima de técnicas específicas que também serão úteis mas não com a prioridade de primeira etapa classificatória que adquiriram. 

            Outra possibilidade a ser experimentada é a de assegurar acesso aos autodidatas em geral. Com a profusão de informações a que estamos submetidos no século XXI, não é difícil atestar conhecimento a quem não possui titulações específicas. A categoria dos professores pode resistir a esta proposta, acreditando que, sem a obrigatoriedade de titulação, o sujeito estará se livrando do ganha-pão dos mestres. Eu responderia que, se o importante é saber, conhecer do que fará em serviço, não estão nossos diplomas atestando isto de forma automática. Pelo contrário, do jeito que há perseguições a alunos por carência, vaidade e conveniência política de professores, diretores e donos de escolas (os privilégios, por força desta mesma contradição, também existem), estamos então disfarçando que temos os melhores profissionais em função dos diplomas que ostentam. Existem mecanismos no sistema educacional brasileiro para atestar conhecimentos e conferir titulações a quem não necessariamente passou por toda a trajetória escolar obrigatória. Refiro-me, por exemplo, ao caso do ENEM para quem quer provar a capacidade quanto ao Ensino Médio, ao caso dos EJAs (Educação de Jovens e Adultos, antigo supletivo, que reduz o tempo de formação no fundamental e no médio) e ao caso das provas de proeficiência, mecanismos aceitos para substituírem a frequência em disciplinas de ensino superior e que são omitidos nas respectivas faculdades.

             Outra questão me irrita bastante: estas provas de múltipla escolha apresentam, por diversas vezes, opções de resposta truncadas. Há bancas que adoram anular questões. Não é possível que respostas idênticas sejam diferenciadas apenas por um tratamento privilegiado do gabarito oficial a uma delas. É equivocado que recursos não sejam deferidos em casos extremamente absurdos. Por mais trabalho que represente a correção, defendo que as provas discursivas assumam imediatamente o lugar das provas de múltipla escolha. Poderão dizer que estas são mais subjetivas e que acabarão caracterizando expressões de preferência ou vantagem pessoal daquela banca mas o que vem ocorrendo com os resultados absurdos das questões de múltipla escolha que encontramos por aí? Pelo menos, com o direito de se expressar livremente, o sujeito poderia escrever o que sabe sem incorrer no exercício angustiante que significa escolher a "menos pior" das opções. Devidamente publicizado o resultado de um julgamento coletivo de professores, não estaríamos sendo mais justos e conferindo certa razoabilidade a argumentos legítimos? Sem contar que a correção gramatical e a coesão textual também poderiam ser exigidas das mesmas respostas discursivas de qualquer conteúdo.

             Precisamos tomar conta de perto dos concursos municipais. Estão muito mais propícios à manipulação política antes, durante e depois da realização dos mesmos que os de outras esferas do poder público. Isto é gravíssimo! Além da Constituição de 1988 ter deixado clara a necessidade de concursos públicos para todas as esferas, órgãos e empresas estatais; muito além da cobrança do Ministério Público sobre as prefeituras e câmaras municipais, há uma insistência das autoridades políticas em nomear e contratar temporários que sejam aliados políticos no lugar de fazer concurso público. Há perseguições inadmissíveis ao servidor concursado, sobretudo em cidades do interior do país. Eu mesmo fui vítima disso e conheço diversos casos no mesmo sentido. Além de uma cultura de protecionismo local aos nascidos e criados ali, o que legitima uma perseguição insistente ao concursado que veio de fora da cidade e tentou concurso público, como todo brasileiro, alcançando o legítimo direito de ser servidor público em qualquer lugar do país, há uma política de transferências e de mecanismos de assédio moral que tentam fazer o servidor desistir. Com a desistência, não é costume puxar alguém da fila de classificados. É costume contratar temporariamente outro cidadão aliado, que votou no político e, portanto, jamais o fiscalizará como deveria. Em geral, as autoridades municipais se aproveitam da lentidão do Judiciário no julgamento dos feitos, assentando seu mandato de quatro anos numa impunidade que, não raro, perdurará uma década ou mais. Com a vitória do servidor, assistimos a um prejuízo financeiro do Erário, que acaba arcando com indenizações vultuosas pelo tempo que levou a sentença judicial definitiva para acontecer. E o prejuízo é duplo ou triplo: durante este período, o servidor afastado arbitrariamente não prestou serviços ao povo, este contou com um substituto que naõ sabia ou não queria fazer o serviço adequadamente e, por fim, acabamos todos tendo que indenizar o servidor maltratado. Uma dica que posso oferecer aos concurseiros de plantão é que resistam ao máximo a prestarem concursos municipais, sobretudo os que acontecem no interior do país, fora das regiões metropolitanas, porque o que vemos é toda a sorte de abusos que atentam contra o Estado Democrático de Direito nas barbas de um Judiciário fragilizado por leis brandas, mecanismos recursais de monte e corrupto, muito corrupto. O Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, por exemplo, tornou-se uma das piores piadas de mau gosto do país pela forma como protege as autoridades municipais mais escandalosas.


              A reforma administrativa implementada pelo Governo FHC foi uma das mais desastrosas contribuições à deficiência do serviço público no país. Por ela, já era suficiente que nenhum servidor público votasse no PSDB mais pelo resto de sua vida. Como o PT manteve diversas modificações, ainda que tenha estancado a sangria realizando mais concursos, também não é digno de louvores. Fernando Henrique Cardoso ampliou o prazo mínimo para o servidor alcançar a tão sonhada estabilidade (de 2 para 3 anos), esticando o tempo em que o servidor fica na mão do político. Destruiu a possibilidade de transferência ou promoção em diversos casos. Aviltou salários e estendeu o prazo para se aposentar, argumentando que teríamos de economizar para sustentar os juros que os banqueiros impõem à dívida pública brasileira. Privatizou diversas estatais e fez com que os antigos servidores perdessem a estabilidade da noite para o dia, resultando no elevado nível de precarização daqueles que trocaram a condição de estáveis pela de terceirizados que podem receber ou não. Como consequência natural, nossos serviços públicos pioraram com a política em vigor. Ainda assim, PSDB e PT (empregados dos donos do mundo) conseguiram dificultar tanto o bem-estar mínimo do trabalhador da iniciativa privada que a péssima condição de muitos servidores públicos virou privilégio na sociedade em que estamos. 

               É por isso que, mesmo com todas as críticas aos concursos e à imagem negativa construída, vou continuar tentando meu lugar ao sol no funcionalismo. Ciente de que, uma vez me tornando servidor público de novo, terei ainda de lutar muito ao lado dos verdadeiros colegas, aqueles que se interessam pelo nosso povo, para manter meus direitos mínimos de existência. Toda vez que ouço alguém falar que funcionário público é vagabundo e não trabalha, lembro ao sujeito que vagabundos que não trabalham e só enriquecem são os nossos patrões, sejam eles os políticos, sejam eles os donos do sistema financeiro internacional. São eles que determinam procedimentos, desviam verbas, alimentam a ingerência e gostam de fulanizar a culpa. Do jeito que está, todos nós perdemos. Durante a década de 90, as promessas da iniciativa privada eram de valorização da  eficiência, da agilidade, da competência e do mérito. Na prática, ao tentar fazer tudo isso, o trabalhador sério acaba punido. Como não gosto muito de ser escravo nem tenho tentações capitalistas ambiciosas, daquelas que precisam estabelecer a ascensão social pisando nos outros (à custa de depressão ou câncer), não vejo outra forma de sobrevivência que não o caminho do serviço público. E vou vencer este desafio.        

          
                         

                                                      

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O mundo sensitivo


            Quer conhecer melhor as pessoas, os fatos, o próprio conhecimento produzido pela humanidade e tudo o mais que não se percebe das sutilezas do amor ao cinismo dos bárbaros? Então não há escapatória para um curioso contumaz como você, homem de potência, que reconhecer o encantamento dos feiticeiros, o comportamento dos médiuns, a sensibilidade dos artistas e a tranquilidade aparente dos sábios. Para tudo que existe, há algo que não existe para você porque simplesmente você desconhece ou refuta pelo filtro dos interesses imediatos, das ideologias, das prioridades quase sempre materialistas e do próprio desdém científico. Quero apresentar-lhes o mundo sensitivo e sua riqueza de possibilidades, muitas as quais experimento através de meu corpo e presença, embora consciente de limitações que me imputam a continuidade do aprendizado. Não conheço de tudo, só consigo compreender algo mais substantivo de mim mesmo na ágora das relações. Busco, sinto e o que extraio das experiências são links de outras ainda mais instigantes. Viver não tem fim, tem “deixa”, o comando do teatro que permite ao outro ator lembrar ou saber que é hora de sua intervenção na peça que corre.

“Cada coisa tem um instante em que ela É.  Eu quero é passar do É da coisa.”
“Eu quero ser sempre aquilo com o que eu simpatizo. E eu me torno sempre, mais cedo ou mais tarde, aquilo com o que eu simpatizo. São simpáticos os homens superiores porque são superiores, são simpáticos os homens inferiores porque são inferiores também. Porque ser inferior é diferente de ser superior e isso é uma superioridade a certos momentos de visão. Eu simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter, com outros eu simpatizo pela falta dessas mesmas qualidades. E com outros eu me simpatizo por simpatizar com eles. Como eu sou rei, absoluto em minha simpatia, basta que ela exista para que tenha razão de ser.”

A partir destes fragmentos de Fernando Pessoa, maravilhosamente declamados por Maria Bethânia, vem a “deixa” a que me refiro. Você pode estabelecer, num diálogo franco com o seu interlocutor, todas as regras que admite, as que assimila e as que rejeita, as que cria e as que obedece, mas sempre deverá lembrar que existem diversas provas em contrário para as suas certezas mais inquestionáveis. O que a ciência faz é estabelecer parâmetros para se iniciar uma análise e limites para que sejamos reconhecidos entre nossos pares. O pensamento científico é religioso e, quando estes se confrontam em perspectiva, costumam se estranhar. É para além dos limites de ambos que podemos desenvolver nosso estar no mundo. As condições impostas pela linguagem talvez nos limitem ainda mais, não servindo, contudo, para justificar plenamente a negação simples da existência do desconhecido.

Quantas vezes você se viu movido por impulsos que comprometeram sua honra, sua glória, seu status, sua moral? O que faz com que consigamos nos entregar completamente diante de alguns impulsos e reprimi-los vorazmente diante de outras circunstâncias? Sempre houve quem explicasse tal evento pela influência externa de forças da natureza, de Deus, dos astros, do entorpecimento, das pressões sociais. Se todas estas forças interagem conosco, algo que reconheço por ter afrontado o estranhamento entre concepções religiosas e concepções científicas, ainda assim está no homem boa parte das decisões e rumos que venha a tomar. E sublinho a “boa parte” porque igualmente reconheço o fenômeno da culpabilização do outro, algo que condiciona o sujeito a interiorizar culpas, paranoias e medos, e tomá-los como verdades esquizofrênicas, superiores e inevitáveis.

Há uma sensação toda especial que percorre nossos sentidos físicos, é decifrada por cérebro e correspondida de imediato. Pode ser ódio ou amor, paixões suplementares, que não necessariamente se sustentam por um exame mais acurado da realidade conflitante. De maneira que ninguém consegue disfarçar completamente, nem por muito tempo, qualquer farsa que tente se impor. Se gosto de alguém, posso falar de diversos assuntos e até me distanciar, levando o sentimento para uma idealização platônica. Posso optar pelo alcance imediato de seu corpo, como um tarado, ou reverenciá-lo aos poucos, como fazemos quando queremos apreciar um bom prato. O que não se pode – e o que se mais faz entre os inseguros - é negar o sentimento. Ao mentir, conduzimos um esforço cósmico invisível e imensurável para direcionar o foco e perder de vista a troca efusiva do encontro e da oportunidade. Há uma perda insensata que precisará ser preenchida por uma angústia qualquer. É bem diferente de pôr as cartas na mesa e levar um “não” como resposta: não partiu de sua tentativa o desvio de foco, mas do outro, que poderá ter suas razões para isso e terminar bem ou, caso reprimido esteja, assumindo os riscos da mentira.
   
É desta dinâmica que resultam, por exemplo, os famosos “descontos” nas pessoas que nada têm a ver com nossos problemas. O organismo humano parece confluir com o astral para que uma sucessão de decepções seja desencadeada, tornando aquele pequeno problema em algo superlativo demais diante de sua origem. Tenho para mim que doenças do mundo contemporâneo estejam diretamente associadas a esta elaboração do real a partir da covardia. Entretanto, os absurdos e injustiças sofridos pelos sinceros parecem ser mais fracos, aproximando-os da solução e das saídas para os fatos mais inacreditáveis com a certeza dos crédulos. Daí advém o peso da meditação, da reflexão, dos princípios pacifistas, do encaminhamento dado pela tranquilidade soberana dos que conhecem e praticam a Lei de Causa e Efeito. Precisamos animar a existência do que sentimos, certos de que a elaboração do pensamento, a aplicação prática da linguagem e dos exercícios ritualísticos (quais sejam!) em torno do desejo é que serão capazes de um fortalecimento sem igual de nossa presença no mundo. Os sistemas de coerção nascem, crescem e se reproduzem da sustentação voluntária, em cada um de nós, da mentira, da autorrepressão, do aprisionamento conceitual e da negação do que sentimos quando, em verdade, acreditamos que tal feito nos assegure garantias outras – da manutenção de uma simples amizade sadia a postos-chave na hierarquia do sistema.

Portanto, é preciso discernimento. Mais do que qualquer tipo de controle, urge aplicar ao cotidiano das relações humanas a observação crítica, o amor e a sinceridade. Só quando desejamos ao outro o melhor dos mundos possíveis é que nos aproximaremos do melhor mundo possível. O encantamento sensorial é um gozo à parte: fortalece a ambos de uma dada relação, ainda que aparentemente infrutífera seja a aplicação instantânea do desejo. Isto porque o desejo de se amar alguém é tão poderoso, por exemplo, que não se limita à personificação estrita de nosso ego. Ao amar alguém, estamos amando a espécie e a todo o cosmos envolto. Com esta firmeza de propósito, o homem que ama a alguém pode chegar ao ponto de um sucesso que, a priori, por desconhecimento dos nexos e das pontes sensoriais, não atribua relação de causa e efeito. Tal impressão equivocada, alienada de sua origem, cai por terra diante da reflexão mais acurada de que fazem os sensitivos. Todos nós podemos desenvolver nossa sensibilidade ao ponto de identificar racionalmente o despertar de uma intuição valorosa ao plano material. Veja o exemplo:

Eu desejo você e você me deseja sexualmente. Eu sou solteiro e gay assumido, você se diz heterossexual e é casado. Temos um sistema de coerção a nos disciplinar, levando-nos a sufocar tal desejo. Eu posso evitar tratar do assunto, muito embora você sinta em meu olhar e em minha companhia uma sensação estonteante que só se completaria plenamente com um beijo, um sexo ou um carinho. Você pode insistir em me rejeitar, o que levarei por conta da rejeição e não me esforçarei em achar que a sua questão comigo seja o contrário. Você pode falar dos outros e tentar me passar o que lhe angustia criando, sobre um enredo alheio, algo que eu não me identifique e, portanto, não compreenda. Eu posso entender que você simplesmente não me deseja. Os dois seguirão frustrados e enfraquecidos. Outra hipótese: eu posso sobrevalorizar cada gesto seu e achar que, de fato, você me quer e tem medo, quando o correto é que isto nem passava pela sua cabeça. Neste caso, tenho eu a opção de seguir frustrado sozinho, ainda que lhe fortaleça em demasia. Esta segunda frustração decorre sim de um sentimento unilateral exacerbado e de uma falha na linguagem (problema ao alcance do discernimento), uma interpretação equivocada talvez, mas jamais me deixará totalmente desguarnecido. Houve uma química no éter que consolidou, graças ao meu desejo intenso de amá-lo, o registro desta intenção no cosmos. Certamente, haverá um retorno favorável. O que o nosso ego não consegue compreender é que este retorno favorável – assim como decorrem retornos desfavoráveis de desejos nefastos – não se apresenta na imagem e semelhança daquele corpo físico ou daquela situação a qual vislumbrava de antemão. Esta emancipação do desejo sobre a materialidade é a mesma que diversas religiões tentam decifrar ao seu modo, perfazendo um sistema de rituais e de crendices que estimulam o comportamento da materialidade. É como se produzíssemos em nós mesmos um poder de influência que desconhecemos, disciplinado por outrem que já os experimentou (nossas autoridades sacerdotais), mas que acabaram estes reduzindo todo o seu sentido maior por mesquinharias e ganâncias mundanas.

Presto era o personagem do desenho animado "Caverna do Dragão" com o qual eu mais me identificava. Era um mago vestido de verde [signo da esperança] do chapéu aos pés. Por mais que fosse bem intencionado e quisesse, de fato, ajudar seus amigos em apuros, situações em que estava sempre envolvido, nem sempre o resultado de seus pedidos mágicos sobre o conteúdo do chapéu, a materialização do que precisavam no momento, era exitoso. Por vezes, pedia um sanduíche e lhe vinha uma vaca inteira e viva. Outras vezes, seu desejo era plenamente alcançado, reportando a ele e ao grupo, que se encontravam em aprendizado constante, as bases de um mundo para o qual foram encaminhados inexplicavelmente. O grupo de amigos havia sido retirado da Terra em um dia em que se divertiam na roda gigante de um parque de diversões. Tudo muito sugestivo. Foram frequentar outra dimensão, lidar com inimigos e seres inusitados, recebendo instruções vagas de um mestre, o Mestre dos Magos, durante a trajetória. Este desenho ainda passa na programação matutina da Globo. Trata-se de um ícone para a geração que vivenciou sua infância nos anos 80.  

Voltemos ao nosso caso. Do perigoso jogo de disputas de poder, passamos a aceitar determinados ritos e signos enquanto refutamos outros violentamente. Todos os signos, desde que devidamente ritualizados, ganham força existencial. O poder das religiões acontece quando se reúne multidões sob um propósito comum, imbuídas de rituais fortemente inspirados, que fazem influência sobre a materialidade. É o mesmo poder que têm as grandes passeatas, as grandes manifestações de protesto pelo mundo, a insatisfação que faz somar diferenças em torno de um desejo coletivo profundamente arraigado. Todo o esforço do sistema é para individualizar culpas e méritos, destituindo dos sujeitos a capacidade de se reconhecerem sob a influência e sobre a influência dos fluxos invisíveis. Apartando-nos de nós mesmos, sabem os doutos serviçais, não comprometemos sua hegemonia. O que não deixa de ser racional para quem objetiva controlar os demais da espécie pode ser fraco diante de um campo que não corrobora com sua lógica de dominação. Seria o que identificamos, a grosso modo, como "o caminho do bem", o que, em verdade, serve aqui como lei de causa e efeito para todas as sensações e desejos. 

O mar pode matar afogado um náufrago como pode trazê-lo para o litoral vivo. Por alguns instantes, posso sair ileso ao deixar um prédio e livrar-me de uma explosão que matou a todos os companheiros de trabalho. Num evento em comemoração ao Dia do Trabalhador, em pleno Governo Figueiredo, artistas diversos iriam se apresentar no Riocentro e, com certeza, esculachariam a ditadura militar. Militares foram com bombas para explodirem tudo e a força dos que ali estavam presentes revidou o propósito de forma instantânea e inesperada: os milicos explodiram com a bomba no colo. Situações como essas não podem ser explicadas apenas cartesianamente, exigindo-se provas materiais e métodos restritos àquele campo do saber para  a sustentação de proposições válidas. Há algo por trás de salvações ou extermínios súbitos, alguns racionalmente previsíveis e outros nem tanto, algo que muitas vezes vai pra conta simples de Deus. Em geral, as pessoas atribuem à vontade divina o desejo pela salvação ou pela morte de pessoas nestes eventos de grande comoção e apelo emocionais, quando seria de boa utilidade um aprofundamento quanto às dinâmicas que reportam à imortalidade da alma. Aceitando-se, por exemplo, que sofremos influência dos mortos ou de tantas outras forças vivas e não visíveis, que podemos também provocá-las com nossos anseios e ritualizações, dá-se um leque de possibilidades que não podemos classificar e coagir como gostaríamos, o que assusta alguns e enche de lágrimas, chega a arrepiar mesmo, tantos outros seres humanos com quem nos apresentamos nos momentos mais inusitados. Momentos, às vezes, decisivos em que aparecemos ou somos instrumentos de um fluxo que precisa ser alimentado costumam me levar para cada caminho inacreditável. Quem assim me lê com certo de grau de desprendimento, experimentado de tal zelo de nossos mentores, sabe do que estou falando. Ninguém se aproxima do espiritualismo sem vivência pessoal forte o suficiente para tal. Por outro lado, ninguém que se aproveite dele para justificar bizarrices de domínio também sai totalmente ileso o quanto crê.
 
Se, de fato, só quem morre é o nosso corpo após uma existência dada no tempo e no espaço restrito, não deveríamos mais temer a morte nem muito menos ficar deixando para ela os encantos de um paraíso ou de um inferno merecidos. Vive-se aqui e agora o que se quer de retorno aqui, agora e depois. Morre-se muito mais em vida do que se imagina, muito mais do que consideram - e temem tanto - apenas como decomposição do corpo físico. Morre-se a cada despertar significativo. Se você é capaz de enxergar em seu passado quais foram os fatos que lhe trouxeram o peso da morte para o que vivia até então, fazendo-o renascer completamente, sentirá, de forma antecipada, o que lhe virá de surpresa após o descarte do corpo que hoje sustenta. Sinais também são dados por sonhos. Graves desgraças, choques profundos no ser e realizações maravilhosas estão na conta dessa visita ao inconsciente: não há preocupação metódica dos espíritos e forças invisíveis em chegar sem sustos. Se você quer amar de verdade e ser amado, se quer muito algo que lhe afeta, vai à luta! 

Dispa-se dos moralismos disciplinadores, das covardias e de toda coerção. Haverá um salto de qualidade e de imunidade quanto às “temíveis” inconsequências que nenhuma religião ousou defender de peito aberto, que nenhuma ciência ousou legitimar sem intermediários ou doutrinadores, mas que existe, esta aí ao seu alcance, perpassa todas as áreas, e você aí perdendo tempo com estados induzidos de depressão e autoflagelo! Em todas as religiões, em todas as ciências, as pistas estão dadas, ainda que suas autoridades prefiram sustentar o contrário. Há momentos de enfraquecimento, de pressão contínua e intensa a oprimir-lhe o ser, há testes de paciência e de adaptação à nova dinâmica, há resistências, pois o mundo sensitivo possui suas lógicas próprias também. Persistência no conhecimento, no amor ao próximo como a si mesmo e na sinceridade ao máximo, redução drástica de preconceitos e pensamentos desagregadores, oriundos da falsidade e da má vontade, da crítica envaidecida, são importantes. O resto fica por conta do que você vai sentir a partir de então. Salve, salve, Simpatia! Cadê aquele brilho nos olhos? "Eu quero ver, na sua cara linda, o lado bom", como disse Cazuza.                                    

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Entre o conhecimento e a reserva de mercado

            A produção do conhecimento, como todas as demais atividades humanas, está submetida aos interesses de mercado. Isto quer dizer que nada que não sirva à lógica restrita do "vale o quanto vende", à lógica da mercadoria, é digno de resistir no mundo, nas conversas, no interesse cotidiano das relações nem muito menos às políticas públicas ou metas de desempenho privadas. Como consequência natural, sofremos de uma perda enorme de cérebros, ideias e inovações com tudo e mais um pouco para deslanchar a humanidade de sua parcimoniosa ignorância desesperadora. É o que acontece com tudo, não seria diferente com o método científico e a produção acadêmica de nossos tempos. Mas se podemos rever tal postura, por que não tentaríamos? Este é um desafio para os professores, para os libertários e a todos que, indistintamente da ideologia embasadora (obviamente alternativa ao capitalismo cristão), apostam que não ficaremos eternamente valorizando os mortos pelo que fizeram em vida quando, em vida, tratamo-os como malucos débeis, alucinados e desprezíveis.

               Podem me chamar de louco ou imbecil mas não vejo razoabilidade nas prisões conceituais a que somos submetidos para produzir conhecimento. Afora o interesse na preservação do direito autoral e, com ele, na restrição do acesso ao conhecimento, de que nos serve a obrigatoriedade das citações de autoria, as referências as quais temos de obedecer para tratar de qualquer diagnóstico banal? Pode-se argumentar que ninguém deveria plagiar ideias alheias, apropriando-se delas como se fossem inexistentes ou desconhecidas, e que, por tal, justificaríamos a necessidade de citarmos nossas referências bibliográficas sobre qualquer argumento. Mas será que, restringindo-se de tal maneira a abordagem sobre qualquer objeto de estudo, favoreceríamos a criatividade, a inovação, o salto qualitativo de que tanto necessitamos nas ciências em geral? Será que não estamos deliberadamente mais propensos a justamente repetir, copiar e acomodar olhares já sustentados no passado, reduzindo de tal maneira a capacidade dos sujeitos de elaborar livremente?


                 O exercício da crítica sobre as diversas leituras que acostumamos a lidar possibilita uma intuição viva e eloquente sobre rumos e propósitos que anda asfixiada pelo método científico. Refiro-me às leituras que se processam sobre os registros escritos mas também aos orais, aos iconográficos, aos sonoros, aos táteis, etc., da experiência alheia ou da própria, a vivenciada. 

                Por muito tempo, desconfiei do medo academicista de se expressar livremente. Minhas reflexões sempre misturavam duas tendências explicativas para o fenômeno: uma de foro íntimo dos pesquisadores e professores, atribuída a melindres oriundos de vaidade, carência e insegurança daqueles que alimentam os nossos debates para depois reprimi-los e enquadrá-los ao ponto de servi-los como bem lhes prouver. Outra explicação, esta mais sistêmica, tratava de nossa condição de colônia no cenário internacional. À medida que lutamos - enquanto sociedade - por melhores escolas e universidades, cederam-nos o direito de frequentá-las desde que não produzíssemos nada mais substantivo que a cópia autorizada pelas matrizes. Não sei lhe dizer em qual medida um fato determina o outro, vejo-os como suplementares. Ambos servem a um propósito comum: a pauperização existencial imposta pelo capitalismo, que reduz a existência de tudo que é rico em seu Ser, da poesia ao magistério, do amor à liberdade, da natureza à criação humana, a um valor único, universal e supremo: só existe se for capaz de se tornar mercadoria. Sem este valor, sem valor mais nenhum. E claro: só quem poderá lucrar com esta mercadoria serão os escolhidos por critérios personalistas, como os de berço esplêndido ou intimidades outras. O critério de mérito ou competência individual, como tanto apregoa o sistema, este é apenas propaganda ideológica, vendida como a razão suprema da lógica capitalista, que, para sustentá-la, serve de exemplos de exceções os quais assegura brechas de acesso. De resto, a regra é a mesma: os costumes nos remetem aos mesmos privilégios herdados daquela  nobreza parasitária que tanto a burguesia um dia derrubou para se firmar como hegemônica no mundo.

           Entendo que a ciência no Brasil, na América Latina, tem que superar sua fixação por se legitimar europeia ou estadunidense. As ciências humanas, então, estas que lidam com um objeto sem causa e efeito mecânicos e automáticos, deveriam ser as primeiras a ousarem. Só podemos interpretar da maneira que um francês, um alemão, um britânico, um italiano, um russo, um norte-americano, um dia ousou interpretar? Se são preciosas e prestimosas suas contribuições à humanidade, podem igualmente o serem aquelas que virão da liberdade de um cientista latino-americano! Este poderá concordar que a melhor forma de se expressar será através da escrita e de suas prisões cartesianas ou positivistas como também poderá simplesmente compor argumentações audiovisuais, pictóricas, escritas porém romanceadas, teatralizadas, enfim, dentre tantos e tantos exemplos e possibilidades de linguagem, o que achar conveniente. Sem ser reprimido, contido, tratado como desprezível, submetido em importância porque não se utilizou de uma tradição que virou obsessão pela legitimidade de se compor cópia da matriz.

             Particularmente, encanta-me a popularização do saber científico. Minha função enquanto professor é esta. Se o que estudo torna-se inacessível aos ouvidos e olhos de meus estudantes, o que estou promovendo pode ser rico e profundo porém restrito a um "gueto" e diminuído em importância por aqueles que deveriam justamente compreendê-lo. Se antes, quem não compreendesse um professor ou qualquer humano culto, ainda assim, tratava de respeitá-lo ao ponto de obedecê-lo, hoje, isto não ocorre como regra. O que se revela da relação é uma reação raivosa da parte de quem não compreende a relevância daquele conhecimento, podendo iniciar-se no desinteresse e extrapolar no desenvolvimento de mágoas, ressentimentos e violências. Para tal realidade, muitas vezes observada mesmo entre estudantes universitários, não basta que se xingue o desinteresse, a apatia ou manifestações aparentemente alheias ao que se pretende na academia, na escola ou na rua. É preciso envolvimento de todos e, desta forma como estão estruturadas e cristalizadas, as ciências que apreciamos com coquetéis em Paris têm servido mais ao comportamento de um europeu mediano, em seus usos e costumes, que a de um brasileiro. 

                  Temos um traço cultural místico que atribue um valor à estética, à sensualidade, à malícia, à magia, ao encanto da malandragem que encontra nas regras as próprias receitas para serem burladas. Estamos tentando civilizar e higienizar este povo à luz do parâmetro do hemisfério norte não é de hoje. E o que estamos obtendo desta empresa se não um baita complexo de inferioridade que determina e angustia o acesso de poucos às brechas proporcionadas pelo sistema das matrizes? Se denúncia ou levante deste porte já havia sido tratado pela Semana de Arte Moderna de 1922, com o seu "Manifesto Antropofágico", por que só o invocamos para enfeitar o pavão como algo restrito a uma época, a pensadores específicos, às artes ou a qualquer outra forma de reverenciá-lo à distância, quando deveria perpassar o nosso fazer cotidiano, nossas obras e nossos objetivos pedagógicos de revolução em todos os sentidos?

             A produção de monografias (ou trabalhos de conclusão de cursos) tem servido às pilhas de arquivos que sequer são catalogados, disponibilizados ao público ou consultados por pesquisadores. Há todo um ritual para sua confecção, um ritual que perpassa doutrinação do modo de ser, pensar e escrever dos estudantes que objetivam um diploma de graduação. Este ritual é potencializado nas disputas acadêmicas por bolsas de mestrado ou doutorado, transformou-se em gratificação por desempenho quando associado ao número de artigos publicados, vira desbunde quando narrado a partir de congressos e colóquios intra-castas. Ao fim e ao cabo, pouco ou nada servem ao que estes próprios estudantes exercitarão em seus respectivos ofícios, caso estes sejam, por exemplo, o destino da maioria no varejo das insanidades por um dinheiro qualquer. O sistema só avalia o quantitativo de trabalhos feitos para avaliar, sob outro número sem razão de ser, ou melhor, para inglês ver, a quantidade pela quantidade. Não precisamos seguir o que não nos serve mais. A não ser que o único objetivo, distante do saber, seja garantir alguma reserva de mercado a qual nem sabemos onde foi parar. 

          Boa pergunta: onde foi parar a reserva de mercado dos direitos autorais e das peculiaridades científicas? Pelo que venho observando, pode ser encontrada na repetição e na concordância aos doutos, na diminuição da crítica e da liberdade de expressão entre os pares. Vale mais o elogio da loucura que a própria, quando ela já difundiu mais valor à humanidade por seus feitos que toda a caretice reunida?

               Penso que não. Penso que um bom argumento pode se servir de conceitos alheios (quiçá anacrônicos!) pois o que mais importa é o argumento, a ideia, o exercício do pensamento, aquilo tudo que nos enriqueceu a filosofia para ser diminuído posteriormente pela economia política: a divisão social do trabalho, a mais-valia e as ciências especializadas a seu serviço. O pensamento restrito obedece a lógicas restritivas quando nossas demandas são infinitas, nossa capacidade de superação surpreendente e o que estruturamos de parâmetro está aberto à transformação. Acredito que, ao defender ideias já defendidas por outrem, ou mesmo ao aplicá-las a um caso concreto, preciso fazê-lo com a liberdade, o olhar e a argumentação necessários e próprios, fazendo valer o organismo vivo da minha existência e dos limites da mentalidade coletiva a qual pertenço. Sendo assim, jamais produziremos meras cópias. Não há que se temer o plágio do argumento ou conceito que encontra dialeticamente o outro. Há que se temer aquele que deixou de Ser por subtração contínua de sua potência. Este copia quem mata.