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Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Estudante, professor e agente da História de seu tempo. Deformado pela Universidade Federal Fluminense, pela capacidade de resiliência em torno de causas justas, pela coragem e pela sinceridade. Dinâmico, espiritualista, intuitivo, libertário, imprevisível. A leitura de seus textos é recomendada a quem faz uso de covardias.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Banheiros e motéis públicos

        Uma sociedade decente cuida das necessidades fisiológicas de seus cidadãos. É uma questão sanitária importante, está vinculada à eliminação de focos de doenças e tem na manutenção de certo odor razoável às calçadas, ruas e bancas de jornal um importante argumento. Ouvi sempre que não deveria urinar na rua. Mas, como tudo no Brasil, a gente ouve da mesma pessoa que não deve quando esta está na frente de outra. Quando a situação obriga e ninguém está por perto, o discurso muda, a interdição é até incentivada, denunciando que vivemos uma grave tradição histórica moralista. Pois assim é para um mijo banal, assim é para tudo que se faz por aqui. 

           Eu defendo a oferta e a manutenção de banheiros públicos gratuitos. Limpos, conservados, como devem ser os banheiros de nossas casas particulares. Se vejo que é obrigação do usuário fazer o possível para não sujar de forma absurda, quebrar ou tornar insuportável o uso por capricho pessoal, acho igualmente um absurdo ter de pagar por isso e ver como os comerciantes em geral nas grandes cidades tratam aqueles que têm necessidade mas não são (ainda ou naquele momento, pelo menos) seus clientes. Quando assisto a discriminações do tipo, mesmo que não sejam comigo, costumo deixar de ser cliente do estabelecimento na mesma hora. Banheiros de graça nas ruas e praças, em quantidade suficiente para o público e limpos, são a única solução para se evitar xixi e cocô na rua, ou ainda, filas indesejáveis aos comerciantes nos banheiros de seus estabelecimentos. Enquanto não temos isto, trata-se de gesto humanitário e de lei a obrigação de se permitir que qualquer um use banheiros disponíveis ao público sem serem discriminados por razão alguma. Muito menos financeira.

           Fico triste quando assisto cidades como Niterói e Resende, no Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, serem, dentre as cidades que conheci até hoje, as piores no trato com as necessidades fisiológicas alheias. Niterói constrói rampas e caminhos delimitados para deficientes mas não suporta que seres humanos em geral façam xixi e cocô em seus comércios. Não investe em banheiros públicos, a não ser que sejam pagos. Com efeito, é campeã no mau cheiro urbano. A cidade que se diz padrão classe A de renda per capita segura chave de banheiro de bares e restaurantes com unhas e dentes. Exige grana, tem horror de quem faz xixi na privada. Não à toa gasta bilhões de litros de desinfetantes e criolinas em calçadas e bancas de jornal todos os dias. A contaminação do ambiente passa a ser dupla: primeiro, pelo excesso de micro-organismos lançados sobre áreas calçadas; segundo, pelo excesso de produtos químicos utilizados sobre as mesmas calçadas onde diversas pessoas passam ou dormem, respiram ou encostam. Os males provocados pela má intenção são cultivados no sistema do mal-estar profundo e coletivo nos mínimos detalhes do cotidiano e não há curandeiro, igreja ou remédio que dê conta das razões por que atravessamos modismos como depressão generalizada, fobias, cânceres e tantas esquisitices patológicas.        

           É termômetro de evolução da espécie permitir e sustentar o uso de banheiros gratuitamente. Se sabemos que todo o saneamento básico foi importante para evitar uma série de doenças onde ele já existe (outra  dificuldade no Brasil), como vamos proibir ou criar dificuldades financeiras para impedir pessoas de usar banheiros???? Então, estamos diante de mais uma triste contradição do sistema do mal-estar profundo e coletivo.  Temos a tecnologia para se evitar um mal maior mas, por ganância, optamos em continuar fabricando o mal maior, ainda que todos possam um dia necessitar de soluções rápidas para o que, em verdade, é inevitável e natural. O que esperar de quem está proibido de usar uma privada por longo percurso? Não apenas uma sujeira na rua mas também um constrangimento pessoal, um fator de diminuição da potência alheia, uma vez que somos uma espécie que um dia julgou possível administrar seus excrementos, isolá-los, oferecer-lhes destino salutar. Quando criamos dificuldades ao próximo a este ponto, estamos contribuindo também com revoltas que são frutos de mágoas desenvolvidas pelo capital. Ou pela ausência dele, impeditivo que justificou o fato do sujeito não ser cliente do comércio ou não poder utilizar o banheiro público pago quando precisou.

           Citei no tópico outra defesa que talvez gere mais polêmica que a dos banheiros: defendo também a manutenção de motéis públicos, sendo que nestes toleraria a cobrança de R$1 (um real) de taxa simbólica por duas horas de uso. Seria o "motel popular". Justifico a importância pelo fato de que considero fazer sexo algo extremamente relevante para a saúde pública e individual também. Sexo seguro, sem dúvida. No ambiente formatado de pequenos quartos com camas, poderíamos acoplar os banheiros públicos e oferecer camisinha gratuitamente. Uma máquina que vendesse produtos de sex shop seria opcional. O sujeito não poderia dormir ali, algo mais adequado a albergues e abrigos. A ideia seria utilizar o espaço para dar aquelazinha(s) fundamental(s). Logo, não haveria discriminação por sexo, sendo apenas o limite da maioridade estabelecido para o acesso. Nada que adolescentes não conseguissem burlar mas que estabelecesse um regramento mínimo e a oferta do espaço.

           Digo isto porque há uma outra limitação ostensiva (e histórica) colocada nos poucos lugares em que existem banheiros públicos: a de se fazer sexo neles. Por tal, não vejo a manutenção de banheiros dissociada da manutenção de motéis populares em espaços públicos. O público homossexual, por exemplo, tem nos banheiros públicos uma espécie de iniciação ou fixação sexual, cultura decorrente do sexismo moralista que separa os banheiros em masculino ou feminino. Veja bem, não estou dizendo que esta separação determina o sexo de ninguém, longe disso! Mas há fatos interessantes que se impõem pelo costume e ninguém questiona. Ninguém separa o banheiro de casa para uso exclusivo de cada sexo mas, em público, como o mundo heterossexual parece bastante tenso, convencionou-se dividir banheiros dessa forma a pretexto de que homens não abusassem de mulheres. Foi uma festa para os gays e ninguém até hoje julgou que tal medida tenha favorecido o sujeito a se tornar um. O mesmo argumento que é utilizado para combater escolas de gênero único, quartéis e seminários não se aplica a banheiros. 

        Nosso mundo, de fato, é curioso. Depois de reprimir uma violência (no caso, a sexual, de homens sobre mulheres nos banheiros), construímos um metiê para marginalizados sexualmente (os homossexuais) nos mesmos espaços e, depois, como se tudo pudesse ser disciplinado por ordenamentos idealistas de nossos irmãozinhos conservadores, também viramos para os homossexuais e dissemos para eles que não podem fazer isso ali. Sem alternativa. 

          (Não podem, não podem e não podem! Bem, isso no Brasil é o mesmo de dizer que podem daqui a pouco, esperem só eles saírem...)

            Os motéis populares serviriam para desafogar o fascínio exclusivo que banheiros públicos exercem por serem espaços onde destinamos, de forma privilegiada, o direito de nos aliviarmos das tensões fisiológicas proporcionadas pela autorrepressão no tempo e no espaço. Seriam ambientes a mais de diminuição do mal-estar social, individual e coletivo, causado pelo abuso de interdições moralistas e financeiras desnecessárias que só repercutiram até os nossos dias em mágoa, rancor, violência e doença. Muita gente se exibe e explode todos os dias em decorrência de proibições e restrições   estúpidas. Não apenas pelos banheiros, mas também pelos banheiros. Não apenas para se fazer "o que não deve" quando muito se deve. É uma tese que defendo: quem caga, mija e trepa melhor não causa tanto transtorno social. 

        Desculpem-me se ofendi com palavras chulas ou se atrapalhei a refeição dos senhores com tema tão escatológico. É que venho pensando em falar de banheiros públicos e motéis populares não é de hoje. Vivendo uma era de capitalismo financeiro tão sugador e imoral, ao ponto de assistir a TV Globo fazendo proselitismo de figuras tão criminosas e escrotas quanto o Sr. Eike Batista, me senti à vontade para defender o direito de quem precisa viver com uma pele mais bonita sem plásticas que estourem por dentro. O silicone francês está em decadência. Ir ao banheiro e fazer sexo sem constrangimento ou dinheiro podem fazer uma grande revolução. É oferecer pra ver.         
   

Um comentário:

  1. leila marina jardim9 de janeiro de 2012 11:03

    Bacana seu texto mas tdo passa por políticas púbblicas e portanto por políticos; se não conseguimos colocar em cargos importantes gente competente, como se faz então?

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